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  • Foto do escritorDiocese de Cruz das Almas

Mensagem do Bispo diocesano para Quarta-feira de Cinzas - 2024



Nesta celebração da Quarta-feira de Cinzas a liturgia orienta colocar cinzas em forma de cruz em nossas cabeças. Os menos informados entendem este gesto antigo como um rito que vai lhes trazer bênçãos e proteções, porém não é verdade. Se engana quem pensa o ritual das cinzas desta forma. Muitos ignoram o porquê do uso das cinzas. No Livro dos Gênesis, logo que os primeiros pais caíram pelo pecado das origens, Deus proferiu uma sentença à Adão: “Tu és pó e para o pó há de retornar” (Gn 3,19). Esta é uma das frases que o missal romano indica para que os sacerdotes proclamem ao impor as cinzas nas cabeças dos fiéis. As cinzas na Sagrada Escritura é símbolo da mortalidade humana, é a indicação de que após o pecado original estamos sujeitos ao sofrimento e a morte. Todo ser humano é mortal e depois da morte volta ao estado de pó e cinzas. Muitos outros textos do Antigo Testamento indicam a realidade mortal do ser humano e apontam as cinzas como símbolo de estágio de putrefação.


O Livro de Jó apresenta um outro significado para as cinzas além de “morte e pó”. Diante de inúmeras provações Jó diz a Deus: “Eu me retrato diante de Ti sentado no pó e na cinza” (Jó 2,8). Em Jó contemplamos que cinza simboliza também arrependimento dos pecados cometidos contra a lei de Deus. Era prática dos penitentes no Antigo Testamento rasgarem as roupas e cobrirem os corpos com cinzas para se humilharem diante de Deus. Quando saíam às ruas todos sabiam que se tratava de alguém que transgrediu a lei do Senhor, então a grande penitência consistia na vergonha pública.


A Igreja quando nos convida a colocar cinzas em nossas cabeças ela quer nos lembrar da nossa mortalidade e nos convida ao arrependimento dos pecados cometidos. Também ela nos exorta a entrarmos num período de profunda intercessão pelos outros, próximos de nós ou longe, que vivem totalmente alheios a realidade do evangelho. Aqueles atraídos pelo mundo e afeiçoados às coisas passageiras. A Igreja nos exorta a nos aproximarmos mais intensamente de Deus neste tempo favorável e a nos desprendermos das coisas deste mundo, de maneira particular da comida e bebida; do consumismo; dos prazeres; das aparências; dos adornos e dos apegos, pois tudo é passageiro e ilusão, só Deus é eterno.


A primeira leitura da liturgia da quarta-feira de cinzas, extraída do profeta Joel 2, 12-18, Deus faz um chamado de jejum público por meio do profeta: convida o povo de Israel a se vestir de saco e cinzas na cabeça como sinal de arrependimento dos seus pecados; mas também de súplicas de perdão dos pecados uns dos outros, para que Ele tenha misericórdia do seu povo pecador. Então, Joel mostra que a razão do jejum e da penitência é para que o povo se volte para Deus enquanto é tempo.


A Quaresma é o momento que a Igreja conclama seus filhos, principalmente aqueles que se afastaram da comunidade cristã, para que voltem imediatamente para Deus. A Igreja diz hoje para nós como Joel dizia ao povo de cabeça dura em seu tempo: “Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos.” (Jl 2,12). A Igreja nos exorta a voltarmos imediatamente para Deus com gestos interiores, rasgando os nossos corações para Deus e não as nossas vestes.


Na quaresma Jesus nos oferece três práticas espirituais para vivermos bem este tempo de conversão e reconciliação: a esmola, a oração e o jejum (Mt 6, 1-6.16-18). A Igreja inicia a quaresma com o texto do evangelho de Mateus e nos adverte para que não caiamos na tentação do orgulho espiritual de nos exibirmos aos outros como piedosos e santos. Por isso, no período da quaresma somos exortados a darmos esmolas, jejuarmos e orarmos disciplinadamente e silenciosamente obedecendo a palavra do Senhor.


O tempo quaresmal é na verdade um exercício espiritual que durará quarenta dias, como durou a experiência de Jesus quarenta dias no deserto e quando foi tentado pelo diabo. Também seremos tentados a afrouxar as nossas práticas penitenciais durante este período. Tomemos cuidado! Vigiemos para não cairmos em tentação. Jesus venceu as armadilhas do diabo, nós, pela graça de Deus e pela nossa perseverança, precisamos vencermos todas as tentações para podermos nos disciplinar diante das desordens em nossas almas, só assim celebrarmos com dignidade a Páscoa de ressurreição.


Quero finalizar com a segunda leitura da liturgia das cinzas e que se encontra em 2Cor 5, 20.6,2. Paulo alerta aos fiéis da comunidade de Corinto: “Deixa-vos reconciliar com Deus...” “...É agora o momento favorável da salvação”. Não esperemos pra nos arrependermos amanhã, pois é hoje o tempo de arrependimento e mudança de atitudes. A Igreja convida aos que não se confessam, faz muitos anos, a buscarem imediatamente a confissão. Também os que possuem práticas abomináveis aos olhos de Deus são exortados a renunciá-las imediatamente, pois amanhã poderá não haver mais tempo.


Desejo a todos que se interessaram ler esta mensagem um tempo quaresmal muito frutuoso e repleto de bênçãos.


Dom Antonio Tourinho Neto

Bispo diocesano de Cruz das Almas – BA


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