Bispo Diocesano lança carta circular sobre leigos e sinodalidade
- Diocese de Cruz das Almas
- 4 de mar.
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No mês de fevereiro de 2026, Dom Antonio Tourinho Neto lançou uma carta circular para os seminaristas da Diocese que traz uma importante reflexão sobre o papel dos leigos na Igreja e a Sinodalidade. Esta carta foi disponibilizada pelo Bispo Diocesano para publicação afim de que não só os seminaristas, mais todos os fiéis clerigos e leigos tenham acesso ao conteúdo.
Abaixo segue a íntegra da carta:
Carta Circular aos seminaristas da Diocese de Cruz das Almas
Para que Jesus Cristo seja exaltado - Salve Nossa Senhora do Bom Sucesso!
Cruz das Almas, 15 de fevereiro de 2026.
Prezados seminaristas, “O Amor Vence Tudo”.
Na última assembleia dos leigos reativamos o CDL (Conselho Diocesano de Leigos), trata-se de um organismo essencial à nossa Igreja particular, pois por meio deste desejamos valorizar e propagar a importância da presença e da participação dos fiéis leigos e leigas nas ações missionária, evangelizadora, pastoral e administrativa na Diocese e nas paróquias.
O Concílio Vaticano II contempla esses irmãos como “fieis cristãos, incorporados a Cristo pelo Batismo, constituídos como parte do povo de Deus e feitos participantes dos múnus sacerdotal, profético e real de Cristo Jesus, exercendo sua parte integrante na missão de todo o povo de Deus na Igreja e no mundo” (cf. Conc. Vat. II; Lumen Gentium, 31).
A Exortação Apostólica Christifideles Laici (São João Paulo II, 31 de dezembro de 1988) tratou amplamente sobre os leigos. O Documento afirma que “o mundo necessita, mais do que nunca, da ação de homens e mulheres comprometidos com a fé católica”. A Christifideles Laici merece ser recordada por quem exercerá futuramente o ministério presbiteral e, mais ainda, por aqueles que irão exercer o ofício de pároco, pois aborda o tema do papel dos leigos dentro da comunidade cristã, exortando à “nova evangelização” a partir deles. Ao mesmo tempo o Documento assinala os diversos âmbitos da ação dos leigos na sociedade, através da “defesa da dignidade da pessoa, da vida e da família; no exercício da caridade como esforço por viver de modo solidário o compromisso político, superando medos que impedem muitos de participar ativamente na vida pública; no mundo do trabalho e da economia; no vasto campo da cultura, para superar o divórcio entre a cultura e o Evangelho etc.”.
É meu desejo que os seminaristas estejam convictos do papel fundamental dos fiéis leigos na missão salvífica que Cristo confiou à Igreja e veementemente insisto para que, desde o tempo de formação ao sacerdócio, busquem valorizar tudo o que diz respeito às atribuições e carismas próprios deles, para que, quando ordenados e enviados às comunidades paroquiais, contem sempre com seu auxílio na árdua tarefa de pastorear o rebanho de Cristo e administrar os bens temporais da Igreja, promovendo uma Igreja diocesana sinodal, missionária, comunitária e participativa.
Quando padres os senhores irão se deparar com a realidade humana de não dar conta de tudo o que diz respeito à salvação das almas, por isso será necessário cultivar a vocação laical nas paróquias, confiando aos leigos atribuições, delegando funções e distribuindo tarefas. Para tanto, é preciso ter consciência de que eles são portadores de discernimento, imbuídos de competência em áreas específicas e cheios de iniciativas que geram o bem da Igreja.
Nossas comunidades paroquiais estão repletas de fiéis leigos portadores de amor incondicional à Igreja, são homens e mulheres que se lançam voluntariamente no auxílio ao pároco, principalmente em assuntos que, algumas vezes, o ministro ordenado não tem domínio. Exorto-os, portanto, nunca tratá-los como se fossem fiéis de segunda categoria na Igreja. O Papa Francisco afirmava que os leigos não são cidadãos de segunda classe na Igreja Católica. O Papa enfatizou que, “os leigos possuem carismas e dons próprios, e são chamados a testemunhar e difundir o Evangelho em suas vidas e ambientes”. O Pontífice rejeitava a visão de que “os leigos são meros auxiliares do clero”. Ele destacava “a importância da sinodalidade, ou seja, do caminhar juntos entre pastores e leigos na Igreja” (cf. Papa Francisco, Catequese na Praça de São Pedro, 21 de novembro de 2024).
Exorto-os ao esforço para que fujam do “agir autônomo, pois a sinodalidade encontra sua fonte e fim último na missão dos pastores e dos fiéis leigos juntos. Não indivíduos isolados, mas um povo que evangeliza” (cf. Papa Francisco, em 18/ 02/ 2023, discurso aos participantes do Congresso dos presidentes e referenciais das Comissões para o Laicato das Conferências Episcopais).
Faço votos que os seminaristas estejam convictos da necessidade de uma “eclesiologia integral”; com perspectiva de “Povo de Deus”; Igreja “sinodal”, “Diaconisa”, “Samaritana”, onde se acentue a unidade na pluralidade no que diz respeito à missão e evangelização, como também, e principalmente, a valorização, o respeito e a colaboração mútua entre os fiéis ordenados e leigos, e nunca a separação de classe, gerando ciúmes, disputas e divisão. Desejo que os senhores se dediquem à maneira nova de olhar à vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, expressas nas duas importantíssimas Constituições Conciliares: Lumen gentium e Gaudium et Spes.
O Papa Francisco solicitava aos clérigos para não alimentarem a prática do clericalismo em seus comportamentos. O Romano pontífice combateu este vício veementemente e em relação ao mesmo ele afirmou que, “Trata-se de um câncer espiritual que envenena a estrutura eclesial por séculos a fora”. O Santo Padre alertou que este mal “afasta as pessoas da Igreja, tornando os fiéis leigos infantis, reduzindo as mulheres a servas que, na Igreja, devem ser valorizadas. O clericalismo é muito nocivo e tem raízes antigas vitimando sempre os leigos” (Entrevista a Eugênio Scafari, 1º/10/2013; diálogo com os jesuítas de Moçambique e Madagascar, 05/09/20219).
Seguindo as orientações do Papa Francisco desejo destacar o papel das mulheres em nossa Igreja diocesana. O Papa pedia uma maior valorização das mulheres nas paróquias e dioceses. Em nossa Igreja particular as mulheres colaboram com os sacerdotes na formação de crianças e jovens; na preparação ao sagrado matrimônio; no acompanhamento da vida familiar através da Pastoral da Criança e da Pastoral Familiar; na organização de iniciativas evangelizadoras e pastorais, inclusive nas pastorais sociotransformadoras (caritativas); no ministério extraordinário da Eucaristia; nos grupos de coroinhas; nas Escolas de Catequese e de Fé e Cidadania. Algumas trabalham nas secretarias das paróquias e também na Cúria diocesana como pessoas de confiança dos párocos e do Bispo. Na Diocese contamos com duas leigas que contribuem na formação dos seminaristas propedeutas e alguns dos senhores foram acompanhados por elas. Quanto ao ministério dos catequistas, uma mulher foi a primeira a ser instituída por nós na Diocese. É preciso lembrar que nas cerimônias e festas das ordenações ministeriais deve-se muito a elas, pois sempre contamos com a sua maternal generosidade no encargo de providenciarem o necessário, disponibilizando ao serviço semelhantes às mulheres que investiam na missão de Jesus e dos discípulos (Lc 8,1-3).
O Papa Francisco afirmou que “a Igreja precisa das mulheres, porque a Igreja é mulher: é filha, noiva e mãe, e quem melhor do que uma mulher para nos revelar o rosto da Igreja” (cf. Papa Francisco, 07/03/2024, encontro com os participantes do Congresso Internacional Interuniversitário Mulheres na Igreja, Universidade da Santa Cruz).
Nesta carta desejo registrar a importância imprescindível dos conselhos paroquiais de pastoral e econômico. O pároco consciente das atribuições e da missão dos fiéis leigos não deve decidir isoladamente sobre o que diz respeito às demandas eclesiais e civis da comunidade cristã. Por isso, é essencial investir na capacitação e na formação laical, para que os leigos estejam preparados no assessoramento do governo paroquial, sobretudo naquilo que lhes compete. Os Conselhos de Pastoral e Econômico são concretizações de uma Igreja em processo de sinodalidade e, por isso, sua criação não é uma opção (cf.: Código de Direito Canônico, cânones 536; 537). A sinodalidade impele a periodicidade da escuta mútua, e isso não é mais do que reconhecer que a paróquia é governada pelo pároco, porém, o batismo, é o sacramento estruturante da Igreja, pois é ele que confere a todos (fiéis ordenados e leigos) a dignidade de Povo de Deus. Os leigos são membros integrantes deste povo e, consequentemente, também responsáveis pelo bom êxito do empreendimento em favor da comunidade cristã.
Por fim, apresento aos senhores um trecho da mensagem enviada pelo Papa Leão XIV aos participantes do Seminário promovido pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, em junho de 2025, quando ele convida as pessoas a se tornarem “pescadores de famílias.” Segundo o Papa, “cabe antes de tudo aos Bispos, sucessores dos Apóstolos e Pastores do rebanho de Cristo, lançar a rede ao mar, tornando-se “pescadores” de famílias. Os leigos são chamados a se comprometerem nesta missão, tornando-se, junto com os Ministros ordenados, “pescadores” de casais, de jovens, crianças, mulheres e homens de todas as idades e condições, para que todos possam encontrar Aquele que é o único que pode salvar”.
Encerro esta carta circular afirmando que os fiéis ordenados não devem querer ocupar o lugar dos fiéis leigos e nem subjugá-los; por outro lado, os fiéis leigos não tratem os fiéis ordenados como meros funcionários das paróquias, porque sua condição não é esta. Os leigos busquem ver os sacerdotes como legítimos pastores do Povo de Deus, homens que exercem o ofício de Pároco ou Vigário paroquial, em comunhão e obediência ao Bispo diocesano.
Que o novo semestre que agora se inicia possa ser repleto de graças para todos os senhores, com a maternal intercessão e proteção de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
+ Antonio Tourinho Neto
Bispo diocesano









